Em Portugal fala-se muito de ciência. Nos discursos políticos, nas promessas eleitorais, nas grandes declarações públicas. Mas quando olhamos para a realidade, encontramos um deserto.
Faltam recursos, faltam condições de trabalho e falta, sobretudo, visão. A ciência continua a ser tratada como um apêndice do sistema político, quando deveria estar no centro da estratégia nacional.
Os jovens investigadores — doutorandos e bolseiros — são o exemplo mais gritante dessa negligência. Deveriam ser o futuro, mas acabam muitas vezes condenados a sobreviver em empregos precários, ou a emigrar em busca do que o país lhes nega: estabilidade e reconhecimento.
A verdade é dura: Portugal continua longe da média europeia em competitividade científica. E o problema não está apenas no dinheiro. Está na falta de prioridades claras, na incapacidade de aproveitar bem os fundos europeus e na ausência de políticas que transformem conhecimento em inovação.
Não basta repetir que “a ciência é uma prioridade”. É preciso prová-lo com ações: carreiras valorizadas, investimento consistente e uma estratégia que ligue investigação a setores-chave da economia. Uma política de ciência forte não é luxo, é sobrevivência.
Porque a ciência não é só prestígio académico — é emprego qualificado, é indústria tecnológica, é desenvolvimento sustentável, é futuro. Sem ela, o país condena-se a ficar sempre para trás.
Se continuarmos a viver de reformas tímidas e mudanças de fachada, o deserto vai prolongar-se. Portugal precisa de coragem política para assumir a ciência como eixo estruturante do seu progresso.
Caso contrário, o futuro do país continuará a ser um deserto sem fim.
Bruno Almeida
Doutorando em estudos Globais






