Joaquim Ferreira Lopes (1937–2025)
Filho. Marido. Pai. Avô. Sonhador. Droguista. Fotógrafo. Empreendedor. Projeccionista. Amante da 7.ª arte.
Com enorme pesar comunicamos o falecimento de Joaquim Ferreira Lopes, aos 88 anos, um homem cuja vida foi iluminada — e guiada — pela luz do cinema.
O seu corpo será velado no Cinema Sandim a partir das 14h de sábado 15 de novembro. A sua última sessão será no domingo, 16 de novembro, pelas 15h na Igreja Paroquial de Sandim.
Nascido em 1937, Joaquim encontrou cedo o brilho que iria marcar para sempre o seu caminho.
A 5 de abril de 1961, no Salão Paroquial de Sandim, projetou a sua primeira sessão de cinema com “O Aprendiz do Diabo”. Não podia adivinhar, nesse momento, que acendia também a primeira centelha de um legado que cruzaria gerações.
Tal como Alfredo em “Cinema Paraíso”, Joaquim foi muito mais do que um projeccionista: foi um mentor silencioso, um guardião de sonhos, um mestre da magia que acontece na sala escura. Levou cinema a quem o desejava, e sobretudo a quem nem sabia que o precisava. Exibiu filmes no concelho de Vila Nova de Gaia e de Santa Maria da Feira, improvisando espaços, reunindo comunidades, revelando mundo mágicos.
A 27 de novembro de 1982, cumpriu o seu grande sonho ao inaugurar o Cinema Sandim, com “Os Salteadores da Arca Perdida”.
A sala tornou-se uma casa de emoções — e Joaquim, o seu coração. Foi responsável por permitir que milhares de alunos do Grande Porto vissem cinema no cinema pela primeira vez. Para muitos, essa primeira ida ao Cinema Sandim tornou-se memória fundadora, presença que moldou vidas e vocações. Joaquim era o primeiro sorriso antes de as luzes apagarem, o gesto calmo que garantia que tudo corria bem, o rosto invisível mas indispensável por trás de cada sessão.
No final de 1996, voltou a reinventar-se, trazendo de novo à vida o Cinema ao Ar Livre. Como Totò seguia as pegadas de Alfredo, assim o público seguia a luz de Joaquim pelas praças, jardins, praias, festivais e eventos do Porto, de Lisboa e de tantas outras localidades. Levou filmes a toda a parte: antestreias, Fantasporto, Porto/Post/Doc, Comic Con, Cine Conchas, Cinema Fora do Sítio, Drive In Matosinhos e Montijo, e muito, muito mais — sempre com o mesmo deslumbramento de quem acredita, profundamente, no valor de partilhar histórias.
Pelo seu contributo exemplar, foi reconhecido publicamente pelo Município de Vila Nova de Gaia, pela Junta de Freguesia de Sandim e pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual. Para muitos, era o projeccionista mais antigo do país. Para todos os que o conheceram, era um homem bom, íntegro, persistente.
Até ao fim, guardou um último sonho: reabrir o Cinema Sandim — encerrado desde 2017 — e expor o seu espólio cinematográfico, preservando o passado para inspirar o futuro.
Como em “Cinema Paraíso”, Joaquim deixa-nos uma lição simples e imensa: a de que a cultura, quando partilhada com amor, torna-se família.
Parte serenamente, deixando atrás de si um rastro de luz — aquele que projetou na vida de tantos.
A sua história continuará a viver em cada memória, cada sala, cada filme que começa com o mesmo brilho com que ele olhava o mundo. Sobretudo, continuará a viver em todos aqueles que, graças a ele, aprenderam a sonhar.
Foi a minha inspiração. Foi a inspiração para toda uma família. É o legado que nos deixa, a todos que através dele descobriram a 7a arte.
Artigo de opinião escrito por: Ricardo Lopes






